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Especialista americano defende classificar facções e milícias como terroristas, mas alerta para riscos ao Brasil

O pesquisador americano Michael Miklaucic, ligado por décadas à área de segurança dos Estados Unidos, defende que facções e milícias brasileiras sejam tratadas como organizações terroristas.

Para ele, o crime organizado já é um ataque direto à soberania, e o país precisa assumir riscos calculados para enfrentar essa ameaça, sem abrir mão de direitos civis nem de autonomia diante de potências estrangeiras.

Quem é Michael Miklaucic e por que sua voz pesa no debate

Michael Miklaucic é especialista em segurança internacional, com histórico na Universidade de Defesa Nacional e no Departamento de Estado dos EUA. Hoje, coordena um núcleo de estudos em segurança e defesa na Universidade Federal de São Paulo. Ele acompanha há anos a convergência entre crime organizado, corrupção e instabilidade política em diferentes regiões do mundo. Sua análise sobre o Brasil parte dessa experiência comparada com outros contextos de violência e traficância transnacional.

Quando o crime organizado vira ataque à soberania nacional

Para o pesquisador, facções e milícias brasileiras já não podem ser tratadas apenas como grupos criminosos comuns. Ao controlar territórios, extorquir comunidades e influenciar autoridades, essas organizações desafiam a autoridade do Estado. Miklaucic afirma que isso se traduz em ataque à soberania, pois cria áreas onde a lei oficial praticamente não chega. Nesse cenário, ele argumenta que a resposta jurídica também precisa ser elevada ao patamar mais grave possível.

Por que classificar facções como terroristas pode atrair poderes extras ao Estado

Uma das principais vantagens apontadas pelo especialista é ampliar a capacidade de atuação das forças de segurança. A designação de “organização terrorista” permite acesso a instrumentos de investigação financeira, cooperação internacional e penas mais duras. Além disso, o enquadramento facilita o bloqueio de bens e o rastreio de fluxos ilícitos em outros países. Para Miklaucic, isso ajudaria a atingir não apenas soldados do crime, mas também lideranças e financiadores.

Riscos jurídicos e políticos de ampliar o conceito de terrorismo

O especialista, porém, reconhece que a estratégia é arriscada e exige cuidado. A ampliação do conceito de terrorismo pode ser usada contra movimentos sociais ou opositores políticos, se não houver salvaguardas claras. Juristas brasileiros também alertam que enquadrar facções como terroristas pode abrir brechas para intervenções estrangeiras ou sanções econômicas ao país. Por isso, Miklaucic insiste na necessidade de equilibrar combate ao crime com proteção de direitos fundamentais.

Cooperação com os EUA: apoio bem-vindo ou porta para ingerência externa?

Miklaucic admite que classificar facções como terroristas tende a aumentar o envolvimento norte-americano na agenda de segurança brasileira. Isso pode se dar por meio de troca de inteligência, operações conjuntas e uso de instrumentos financeiros contra redes ilícitas. Ao mesmo tempo, ele considera um erro transformar essa cooperação em pretexto para ações militares diretas ou guerra econômica. O desafio, segundo o pesquisador, é reforçar a parceria sem ceder o controle da política de segurança nacional.

Lacunas da estratégia brasileira contra facções e milícias

Na avaliação do especialista, o Brasil enfrenta um problema “sem precedentes” pela combinação de dimensão territorial e diversidade social. Ele aponta falhas de coordenação entre esferas municipal, estadual e federal, que permitem a expansão das facções. A falta de integração em inteligência e investigação abre corredores para o crime transnacional. Essas brechas são exploradas por redes criminosas que operam simultaneamente em fronteiras, portos, cidades e prisões.

Integração entre polícias, fronteiras e inteligência como eixo central

Para Miklaucic, não faz sentido escolher entre atuação local ou federal no combate às facções. Ele defende investimento simultâneo em polícias estaduais, Polícia Federal e órgãos de inteligência, com comunicação permanente entre eles. Sem essa malha integrada, o crime apenas migra de uma região para outra, mantendo poder e rentabilidade. O especialista considera que o tema deveria ser tratado como prioridade de segurança nacional, e não apenas problema regional ou eleitoral.

Penas mais duras, responsabilização da elite criminosa e da “zona cinzenta”

O pesquisador apoia penas severas para integrantes do crime organizado, desde que aplicadas de forma equilibrada em toda a cadeia. Isso inclui chefes de facção, políticos corruptos e profissionais que prestam serviços estratégicos às quadrilhas. Advogados, contadores, consultores financeiros e especialistas em tecnologia podem ajudar a lavar dinheiro e esconder patrimônio. Para ele, legislações que tratem essas condutas com rigor são essenciais para estrangular o poder econômico das facções.

Controle territorial e limites de operações de choque

Miklaucic considera que o objetivo final deve ser o controle territorial efetivo pelo Estado em áreas dominadas por facções. No entanto, ele alerta que operações de confronto intenso, isoladas de políticas estruturais, tendem a produzir resultados passageiros. Experiências internacionais mostram que encarceramento em massa e execuções de lideranças não desmontam redes criminosas. Em muitos casos, prisões superlotadas acabam fortalecendo as organizações, que transformam o sistema penitenciário em base de comando.

Educação, transparência e debate público sobre leis antiterrorismo

Além de mudanças legais, o especialista enfatiza a importância da educação cívica e da transparência. Campanhas permanentes podem conscientizar população e servidores públicos sobre impactos sociais e econômicos do crime organizado. Cursos de atualização em ética e legislação ajudam a reduzir corrupção e conivência dentro do Estado. Miklaucic defende que qualquer uso de legislação antiterrorismo contra facções seja amplamente discutido, fiscalizado e comunicado à sociedade.

Entre o risco calculado e o abuso de poder: qual caminho o Brasil deve escolher?

Na síntese do pesquisador, o Brasil enfrenta uma ameaça grave e não pode repetir estratégias já fracassadas. Classificar facções e milícias como terroristas pode oferecer ferramentas úteis, desde que cercadas de limites claros. O país precisará combinar cooperação internacional, integração interna e respeito a direitos fundamentais para evitar abusos. Segundo Miklaucic, aceitar certos riscos é inevitável, mas a linha entre defesa da soberania e excessos de poder deve permanecer visível.

Fontes (Referências): Entrevista de Michael Miklaucic à BBC News Brasil, republicada pelo Correio Braziliense, e análises complementares de juristas e especialistas em segurança pública.

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