Uma declaração conjunta divulgada nesta terça-feira (22) por países integrantes do Escudo das Américas ampliou a pressão internacional sobre organizações criminosas da região e incluiu o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) entre 24 grupos considerados ameaças transnacionais.
A iniciativa, liderada pelos Estados Unidos, teve adesão de 14 países da América Latina e do Caribe e surpreendeu o governo brasileiro, que não integra a coalizão.
Escudo das Américas nasceu em março com iniciativa liderada pelos EUA
O Escudo das Américas, ou Shield of the Americas, foi apresentado pelo governo de Donald Trump durante uma cúpula realizada em Miami, em março de 2026. O encontro reuniu chefes de Estado de diferentes países do continente com a proposta de ampliar a cooperação regional contra cartéis, organizações criminosas transnacionais, tráfico de drogas e redes financeiras associadas a essas estruturas. Na ocasião, participaram representantes de países como Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago, além dos Estados Unidos.
A iniciativa prevê maior intercâmbio de inteligência, coordenação entre forças de segurança, medidas financeiras e cooperação contra organizações que operam em mais de um país. Desde então, o projeto passou a reunir novos participantes e ganhou maior relevância dentro da estratégia do governo Trump para o combate ao crime organizado no Hemisfério Ocidental.
Reunião em Nova York amplia ação e inclui PCC e Comando Vermelho
A nova etapa foi anunciada nesta terça-feira, às margens da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Representantes de 14 países se reuniram com Donald Trump e membros do governo norte-americano e aderiram a uma declaração voltada ao enfrentamento de 24 organizações que os Estados Unidos classificam como terroristas ou narcoterroristas.
Entre os grupos citados estão o PCC e o Comando Vermelho, duas das maiores organizações criminosas brasileiras. Participaram da declaração Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago. Somados aos Estados Unidos, são 15 governos envolvidos diretamente no comunicado divulgado após o encontro.
A declaração prevê ações coordenadas contra essas organizações, incluindo medidas financeiras, possíveis bloqueios de ativos, restrições relacionadas a integrantes e apoiadores e maior cooperação entre os governos. A implementação, entretanto, deverá respeitar a legislação interna de cada país, o que significa que a designação norte-americana não produz automaticamente os mesmos efeitos jurídicos em todos os integrantes da coalizão.
Brasil ficou fora e governo Lula foi surpreendido pelo comunicado
O Brasil não integra o Escudo das Américas e não participou da reunião em Nova York. Segundo informações publicadas por UOL e Folha de S.Paulo, o Palácio do Planalto e o Itamaraty não tinham conhecimento prévio de que PCC e Comando Vermelho seriam incluídos na declaração assinada pelos demais governos. A diplomacia brasileira soube da medida depois da divulgação do documento.
A reunião ocorreu depois dos discursos de Lula e Donald Trump na Assembleia Geral da ONU. O presidente brasileiro já havia defendido, horas antes, uma estratégia de combate ao crime organizado baseada em cooperação internacional, inteligência, rastreamento financeiro e respeito à soberania dos países. O governo Lula também tem rejeitado a classificação unilateral das facções brasileiras como organizações terroristas, argumentando que o enquadramento jurídico adotado pelos Estados Unidos não corresponde necessariamente à legislação brasileira.
A posição coloca Brasília em uma situação distinta da adotada pelos 14 governos que acompanharam a iniciativa norte-americana. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro sustenta que mantém operações próprias contra PCC, Comando Vermelho e outras organizações criminosas, além da cooperação com autoridades estrangeiras em investigações sobre tráfico internacional e lavagem de dinheiro.
Medida amplia debate sobre terrorismo, narcotráfico e soberania
A inclusão de PCC e CV na ação do Escudo das Américas adiciona um novo componente ao debate regional sobre segurança pública e crime organizado. Para o governo Trump, a atuação transnacional de grandes organizações ligadas ao narcotráfico justifica instrumentos semelhantes aos empregados contra grupos terroristas, especialmente em áreas como sanções financeiras, circulação internacional de integrantes e cooperação militar e policial.
O Brasil, por outro lado, mantém uma distinção jurídica entre organizações criminosas e grupos terroristas. A legislação brasileira estabelece critérios próprios para o crime de terrorismo, enquanto PCC e Comando Vermelho são tratados pelas autoridades nacionais como organizações criminosas. Essa diferença ajuda a explicar a resistência de Brasília à classificação adotada pelos Estados Unidos e agora acompanhada por outros governos do continente.
O comunicado divulgado em Nova York não obriga automaticamente o Brasil a alterar sua legislação ou adotar a mesma classificação. A decisão, entretanto, amplia a pressão diplomática e regional sobre Brasília e pode aumentar a cooperação entre países vizinhos na imposição de restrições financeiras e outras medidas contra integrantes e estruturas associadas às duas facções brasileiras.
Fontes: UOL, Folha de S.Paulo, Reuters, GovInfo/Presidência dos Estados Unidos e Bacci Notícias.

