O antigo Hospital Colônia de Barbacena encerrou definitivamente, nesta segunda-feira (25), a fase de internações de longa permanência.
Os 14 últimos pacientes psiquiátricos que ainda viviam no local foram transferidos para uma residência terapêutica. A medida fecha um dos capítulos mais dolorosos da história da saúde mental no Brasil.
Últimos pacientes foram transferidos para residência terapêutica
O encerramento da era manicomial ocorreu com a saída dos 14 últimos pacientes de longa permanência do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena. Eles foram levados para uma residência terapêutica, modelo de moradia que busca oferecer acolhimento, acompanhamento especializado e rotina mais humanizada. A mudança representa uma tentativa de substituir o isolamento hospitalar por cuidado em liberdade. Segundo o Governo de Minas, o espaço seguirá funcionando dentro de outra lógica de atendimento. O centro continuará como referência para crises agudas e atendimentos ambulatoriais em saúde mental. Dessa forma, o fechamento atinge os antigos leitos de longa permanência, associados ao modelo manicomial que marcou a instituição por décadas.
Instituição se tornou símbolo de sofrimento e exclusão
O local foi inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena, inicialmente voltado ao tratamento de tuberculose. Em 1911, passou a funcionar como Hospital-Colônia, tornando-se o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais. Ao longo do século XX, porém, o espaço ficou conhecido por superlotação, abandono e violações graves de direitos humanos. A instituição recebeu milhares de pessoas ao longo de sua história, muitas delas encaminhadas sem diagnóstico psiquiátrico adequado. Parte dos internos era formada por pessoas pobres, abandonadas por famílias, mulheres consideradas fora dos padrões sociais, dependentes químicos e indivíduos marginalizados. Por isso, o antigo hospital passou a ser lembrado como um símbolo extremo da exclusão social no país.
História ganhou repercussão nacional com denúncias
As condições dentro do Hospital Colônia ganharam repercussão nacional por meio de denúncias, fotografias, reportagens e estudos sobre a chamada era manicomial. O caso foi retratado em obras como “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex, que reuniu depoimentos de sobreviventes, ex-funcionários e pessoas ligadas à rotina da instituição. A expressão se tornou uma das formas mais conhecidas de definir a tragédia vivida em Barbacena. Relatos históricos apontam cenário de fome, frio, superlotação, falta de assistência adequada e mortes em larga escala. Ao longo dos anos, a memória desse período passou a ser preservada também pelo Museu da Loucura, instalado em área ligada ao antigo complexo. O espaço funciona como alerta contra a repetição de práticas desumanas na saúde mental.
Desinstitucionalização vinha sendo feita desde 2019
O encerramento das internações de longa permanência não ocorreu de forma repentina. Desde 2019, o Governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de Saúde e da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, vinha conduzindo um processo gradual de desinstitucionalização. A proposta era retirar pacientes remanescentes do ambiente hospitalar e levá-los para Serviços Residenciais Terapêuticos. Antes da transferência final, 68 pacientes já haviam recebido alta para residências terapêuticas em municípios como Barbacena, Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga. Com a saída dos 14 últimos moradores institucionalizados, o antigo Hospital Colônia deixa de manter pacientes em regime de longa permanência. Além disso, o ato reforça diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial do SUS.
Fechamento é tratado como marco para a saúde mental
Autoridades estaduais classificaram o fechamento desse ciclo como um marco histórico para a saúde mental brasileira. A cerimônia contou com representantes do Governo de Minas, da Fhemig, do município de Barbacena, ex-pacientes e convidados. O gesto simbolizou o fim de um modelo baseado no confinamento prolongado e na perda de vínculos sociais. Apesar do encerramento, a história do antigo Hospital Colônia segue como memória sensível e necessária. Para especialistas e defensores da luta antimanicomial, o caso ajuda a explicar por que o cuidado em saúde mental precisa respeitar dignidade, liberdade e acompanhamento contínuo. Para os últimos pacientes transferidos, a mudança representa o início de uma nova fase longe dos muros que marcaram suas vidas.
Fontes: Metrópoles e Agência Minas.

