Uma investigação especial da agência Reuters, divulgada em 20 de outubro de 2026, revela que ondas de calor gigantescas estão se tornando cada vez mais frequentes e abrangentes em diferentes partes do mundo.
A análise de dados climáticos desde 1960 identificou o avanço das chamadas “tempestades de calor”, fenômenos capazes de persistir por meses e afetar extensas áreas da Terra. O levantamento reúne registros históricos, análises científicas e relatos de populações atingidas para explicar como o aumento das temperaturas está transformando o clima e a vida no planeta.
O que são as tempestades de calor e como elas se formam?
O termo “tempestades de calor” foi desenvolvido pela Reuters, após consultas a aproximadamente duas dezenas de especialistas, para classificar ondas de calor de dimensões extraordinárias. Na metodologia adotada, uma onda de calor ocorre quando determinada região registra temperaturas entre as 10% mais elevadas de seu histórico climático por pelo menos cinco dias consecutivos. Quando uma dessas ondas alcança, em seu ponto máximo, pelo menos 1% da superfície terrestre, passa a ser considerada uma tempestade de calor. Diferentemente das tempestades convencionais, não se trata necessariamente de um fenômeno acompanhado por ventos ou chuvas intensas, mas de uma extensa área submetida a temperaturas anormalmente altas. A classificação é uma proposta da investigação, e não uma denominação meteorológica universalmente padronizada.
De eventos raros a mais de 100 tempestades de calor por ano
A comparação histórica evidencia a dimensão da mudança. Durante a década de 1960, o planeta registrava, em média, aproximadamente cinco tempestades de calor ativas por ano, segundo os critérios utilizados pela Reuters. Na década atual, essa média chegou a 102. Para chegar aos resultados, a agência analisou temperaturas horárias desde 1960, utilizando mais de um milhão de células geográficas distribuídas pelo mundo. O levantamento também identificou que a extensão média do planeta afetada por ondas e tempestades de calor aumentou mais de doze vezes ao longo desse período. Além disso, desde julho de 2008, pelo menos uma tempestade de calor permanece ativa em alguma região da Terra, formando uma sequência contínua de eventos extremos que já ultrapassa 18 anos.
Tempestade Vera: o maior evento acumulado já identificado
Entre 29 de julho de 2023 e 29 de julho de 2024, ocorreu o fenômeno denominado pela Reuters como tempestade de calor Vera. Durante seus 367 dias de existência, o evento alcançou, de maneira acumulada, quase 85% da superfície terrestre, tornando-se o mais abrangente identificado pela investigação nesse critério. Isso não significa que toda essa área tenha sofrido calor extremo simultaneamente. Em seu momento de maior extensão, Vera cobriu aproximadamente 31,3% do planeta em 5 de janeiro de 2024. Ao longo de sua trajetória, o fenômeno passou por diferentes continentes e esteve associado a secas severas, incêndios florestais, temperaturas recordes e impactos sobre atividades econômicas e populações vulneráveis.
Brasil e outros países enfrentaram consequências graves
Os efeitos da tempestade Vera foram documentados em regiões como Estados Unidos, Espanha, Brasil, Filipinas e Costa do Marfim. Na Amazônia brasileira, o lago Tefé, no Amazonas, atingiu temperaturas de até 41 graus Celsius em 2023, durante uma combinação de calor extremo e estiagem que contribuiu para a morte de mais de 200 botos. Nos Estados Unidos, o calor agravou períodos de seca e incêndios na Louisiana. Na Espanha, temperaturas elevadas e escassez de chuvas prejudicaram a produção de azeitonas, contribuindo para a alta dos preços do azeite. Já na Costa do Marfim e em Gana, importantes produtores mundiais de cacau, perdas nas lavouras comprometeram a renda de agricultores e pressionaram o mercado internacional de chocolate. Esses episódios demonstram que as consequências do calor podem ultrapassar fronteiras e afetar cadeias de abastecimento.
Calor extremo ameaça a saúde e altera até os invernos
Além dos prejuízos ambientais e econômicos, as tempestades de calor representam riscos significativos à saúde humana. Nas Filipinas, em abril de 2024, a combinação de temperatura elevada e umidade produziu sensações térmicas superiores a 50 graus Celsius em determinadas localidades, levando à suspensão de aulas presenciais e ao atendimento de estudantes que passaram mal. Na Arábia Saudita, temperaturas extremas durante a peregrinação a Meca, em 2024, estiveram associadas à morte de mais de 1.300 pessoas. O fenômeno também pode ocorrer em meses tradicionalmente frios. Na Polônia, a tempestade Vera contribuiu para temperaturas excepcionalmente amenas durante o inverno, alterando o comportamento de animais e antecipando o florescimento de plantas. Esses exemplos reforçam que as mudanças não se limitam aos períodos de verão.
Aquecimento global e El Niño ajudam a explicar o avanço
Segundo a análise da Reuters, o aumento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera está relacionado à expansão das ondas e tempestades de calor. Desde os anos 1960, a concentração atmosférica de dióxido de carbono cresceu mais de 30%, intensificando o aquecimento global provocado pelas atividades humanas. Fenômenos naturais, como o El Niño, também podem ampliar temporariamente o alcance e a intensidade desses episódios ao modificar padrões de circulação atmosférica e temperaturas oceânicas. Os especialistas destacam, entretanto, que nem todo incêndio, seca ou desastre registrado durante uma tempestade de calor pode ser atribuído exclusivamente a ela, já que fatores regionais e outras condições meteorológicas também influenciam os impactos.
Novo recorde em 2026 reforça alerta sobre o futuro
A investigação também identificou uma nova tempestade de calor, denominada Raimundo, iniciada em fevereiro de 2026. Em 28 de agosto, o fenômeno alcançou simultaneamente 33,8% da superfície terrestre, superando o recorde de extensão máxima que pertencia à tempestade Vera. O episódio afetou diferentes regiões, incluindo áreas da Europa atingidas por temperaturas extremas e incêndios florestais. Para os pesquisadores, a combinação de eventos mais frequentes, duradouros e geograficamente abrangentes exige avanços nos sistemas de monitoramento, adaptação das cidades e proteção das populações vulneráveis. A Reuters também desenvolveu uma ferramenta de acompanhamento dessas tempestades, permitindo observar como o calor extremo evolui ao redor do mundo. O cenário aponta para a necessidade de medidas de prevenção e políticas climáticas capazes de reduzir riscos à saúde, à produção de alimentos e aos ecossistemas.
Fonte: Reuters — investigação especial “The Age of Heat Storms”, publicada em 20 de outubro de 2026.
Leia a investigação original da Reuters.

